PARTE FINAL
P: Você citou a questão atômica e vários atores
emprestam suas vozes para passar qualquer tipo de mensagem. No seu caso, existe uma certa aura de
anonimato à sua volta e, excetuando-se as capas de revistas adolescentes, a
gente não lê nem ouve muita coisa sobre
você...
RP: Eu sempre tive a impressão que poderia fazer
alguma diferença, que eu poderia influenciar se usasse esse orifício que tenho
na cabeça para me comunicar com as pessoas através da mídia. Eu via a mídia
como arma, mas na verdade eu sou a arma.
E acho que eu era ingênuo em pensar
que o que você diz pode ser tomado de uma maneira didática. Na verdade, por que
eu estou apreendendo todo o tempo. Então
eu tentava dar entrevistas, não é? Mas eu vejo as coisas de outra maneira. Por que se existe alguém cujo trabalho eu
respeito é Gary Oldman, e não foi por que li em alguma revista. O que me faz pensar que ele seja independente
disso. Harrison Ford também é
independente de assuntos políticos e se mantém fora das publicações. E, para falar a verdade, quem quer ouvir a
opinião de artistas sobre assuntos que podem ser lidos nos jornais?
Quando
tenho que falar de um assunto muito importante, sinto que doutrinar o público,
principalmente se esse é jovem e pouco informado, não é uma coisa errada. No passado, falei muita besteira, muitas
coisas que no dia seguinte mudei de ideia, muitas vezes eu era um personagem
nas entrevistas. Falei muita coisa em tom sério que não passava de brincadeira.
Fazia isso como um laboratório, uma espécie de queda de braço com a imprensa.
Mas agora não estou mais interessado nesse tipo de atitude. Gostaria de ser
mais minimalista e dizer apenas o que tenho certeza. E além disso, sou uma
pessoa muito simples.
P: Você não mora em Hollywood, e para uma pessoa
que precisa trabalhar lá é necessário saber lidar com quem vive nela – os
agentes, produtores, saber negociar. Existe algo que você precisa negociar?
RP: Sim. Você tem que negociar o tempo inteiro.
Existem pressões e uma série de expectativas sobre sua carreira. E as pessoas na indústria de cinema espalham
boatos. Eu não pergunto a opinião das
pessoas e realmente não me importo. Não estou
aqui para benefício da minha carreira ou da minha conta bancária. Eu só
gostaria de ser inteligente e não gastar muito dinheiro. Mas não tenho nenhum
plano de carreira, vou lendo os filmes e se alguma coisa me atrair, então
ótimo. Por isso, a única estratégia por trás de The Thing Called Love é que a historia tinha que ser um espécie de paradoxo depois de Garotos de Programa. Eu quis que fosse assim porque seria bom
ser ouvido no Meio Oeste e no Sul, onde meu personagem anterior não era bem
visto.
P: Em Garotos de Programa você faz um personagem
que não era abertamente gay, mas... por outro
lado...
RP: O problema não era
tanto pelo que o sujeito era, pelo menos para o mercado negro. Não é ilegal ser
gay; prostituto é. Esse é um campo onde uma série de pessoas tende a confundir
o personagem com você. Sob o meu ponto de vista, tanto faz. Mesmo se eu fosse
igual. Mas existem certas distorções
quando se representa um papel que pode limitar a existência de outros
personagens que também têm que ser ouvidos. Sabe, eu não me preocupo com
auto-imagem.
P: Nas próximas semanas serão iniciadas as
filmagens de Entrevista com o Vampiro. Temos aí o exemplo de um filme que nem
começou e já tomou conta do noticiário, por causa da escolha do elenco. Isso o
está perturbando?
RP: Não, por que eu nem o vejo como um filme no
qual eu vá tomar parte. Eu não vou fazer
um filme. Como você sabe, eu vou receber o meu diploma de jornalismo. Vou acompanhar algumas entrevistas, vou ver
esse burburinho todo, vou tentar chegar ao fundo disso tudo. É assim que eu
estou tratando as coisas. Quando chegar no final é que eu vou saber. Não tem
nada a ver com o planejamento de uma carreira. E eu tenho um grande respeito
por qualquer um com quem eu venha a trabalhar. E desejo toda felicidade a eles.
P: Você disse que não assiste a muitos filmes.
Não é importante para você, como ator, tomar conhecimento do que é produzido a
sua volta?
RP: É bom saber o que tem sido feito, dos bons,
pelo menos pela mídia. Não são todos, mas a maioria, os óbvios, não passam de poluição
mental. E eu realmente não quero contaminar o meu trabalho, a minha maneira de
pensar, com coisas que não irão acrescentar nada a minha interpretação. Nessa
era da comunicação, você tem que ser seletivo.
P: Você está desenvolvendo algum projeto próprio?
RP: Sim, está no papel. Algo que me é muito
querido, mas que não comecei direito. Espero acabar de escrever e fazer esse
filme nos próximos anos. Alem disso existem outros pequenos projetos.
P: Você perdeu a ingenuidade? Quando apareceu não passava de um garotinho.
RP: Não
era ingenuidade. Era mais ignorância, não sabia das coisas. E falava o
contrário do que estava pensando. Pensava que eu estava falando a verdade
e... Mas eu vou apreendendo com o tempo. Tentativa e erro. Ultimamente tenho evitado falar a verdade quando pode
sugerir algo negativo, manipulável. Estou tentando parecer otimista e
educado.
Fonte: Revista SET, em novembro de 1993