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sábado, 11 de dezembro de 2010

"Rio Profundo" [Parte 2]: The Face Magazine/1989

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Arlyn conheceu John em Los Angeles e juntos saíram para buscar satisfação espiritual, juntando-se a uma comunidade no Oregon, onde River nasce. Mais tarde, após tornar-se parte de uma seita religiosa, os Meninos de Deus, eles começaram a pregar o seu evangelho em lugares distantes. Para River, isso significou uma existência itinerante. A insegurança física foi equilibrada pelo amor familiar, e com a família se mudando novamente, ela cresceu. Rainbown nasceu no Texas, Leaf, em Porto Rico, Liberty na Venezuela e Summer na Flórida. Seus nomes, diz Arlyn "são para lembrar as pessoas das coisas bonitas em volta."

Quando a família cresceu, cresceu mais próxima. "Estávamos todos juntos nisso", diz Phoenix, enrolando e desenrolando uma folha de papel enquanto ele fala, esticando as pernas na frente dele, caindo um pouco em sua cadeira. Ele é educado e paciente, mas você tem a sensação de que ele preferia estar lá fora com os amigos, ouvindo música ou o que ele chama de "apenas brincando" do que falar sobre si mesmo. "E é tudo muito igual. Respeitamos os nossos pais e eles nos respeitam. Mesmo quando éramos mais jovens, isso nunca foi: 'Bem, eu sou o pai e você é o filho.' Você não seria travado por causa de sua idade. Exatamente o oposto. Meu pai costumava dizer: 'O mais jovem começa a gritar mais alto, porque eles nunca o escutam!' Meu pai fala com Summer, que é a mais jovem, da mesma forma que ele fala com o meu avô ou com qualquer um. Eles sempre nos deram uma parte justa."

"Nós nunca tratamos eles como crianças", Arlyn concorda "mas como novos amigos acrescentados. E eles sempre tiveram a sua parte do negócio. Nunca foi tipo, 'Nós sabemos melhor, porque nós somos os pais.' Era mais como, 'Esta é a primeira vez que nós estamos fazendo isso também. O que você acha?' E as crianças eram tão sábias. Se nós cometemos um erro, nós fizemos isso juntos. Mas se você se abrir, um caminho se apresenta. Você encontra o caminho certo."

Para além desta filosofia hippie dos anos sessenta um caminho se apresentou e levou direto para o show business. Todas aquelas pessoas jogando moedas para as crianças nas ruas de Caracas apontou o caminho. River podia agora lidar com uma guitarra e tinha descoberto um talento natural. A família pulou em um cargueiro para a Flórida, uma passagem no caminho para Hollywood. Na Flórida, eles entraram em todo tipo de concurso de talentos infantis amadores que puderam encontrar. Os garotos bonitos com os nomes estranhos atraiam os jornais, e logo um caçador de talentos do estúdio convidou-os a aparecer se algum dia passassem por Los Angeles. A família bancou a aposta mais uma vez, colocou os filhos na traseira de uma velha caminhonete e dirigiu por todo o país até a Califórnia.

Os dias de hippie acabaram. Arlyn conseguiu um emprego como secretária em uma rede de TV, enquanto John ensaiava as crianças e as levava em testes. Desta vez, no mundo real, suas idades trabalharam contra eles. Os executivos de talento se preocupavam com crianças, embora bonitas, cujas vozes podem mudar e visuais podem desaparecer. Eles tentaram outra tática. John levou River a testes para comerciais, onde o seu visual coberto de pureza - conseguiu o trabalho e o pagamento era sempre bom. Mas River se opôs. Depois de alguns comerciais, disse a seus pais que ele não estava confortável vendendo produtos em que não acreditava. Embora eles precisassem do dinheiro, respeitaram os seus desejos.

Dos comerciais veio um papel numa série de TV, atuando assim como tocando guitarra. River adorou atuar, sentindo que sua educação tinha ajudado a prepará-lo para caber em outros personagens. O trabalho no cinema veio logo em seguida. O trabalho era constante e os rendimentos permitiram que a família realizasse um sonho antigo. Eles compraram dez hectares de terras na Flórida e construíram uma casa para a família inteira. Arlyn assumiu a gestão das carreiras de seus filhos (por esta altura, Leaf e Rainbown também estavam atuando), e John retirou-se para plantar uma enorme horta orgânica para cultivar seus próprios alimentos.

"Eu moro com a minha família na Flórida", diz Phoenix "porque para mim agora oferece uma espécie de estabilidade que eu nunca tive. Nós sempre nos mudamos muito. Seria difícil se meus pais fossem condescendentes ou superiores, mas eles não são. Suponho que chegará um momento em que eu sentirei uma necessidade de explorar outras coisas, mas não será uma rebelião. Só uma curiosidade natural."

Pode ser difícil para Phoenix afastar-se dos caminhos peculiares de sua família. Apesar de terem abandonado o estilo de vida hippie, a moralidade dos anos sessenta, através da qual vivem e que River abraça, não é nenhum manifesto yuppie dos anos oitenta. A dureza do olhar na busca pelo dinheiro e pelos bens materiais é estranho para ele. "Meu sonho verdadeiramente grande", diz ele, curvando para a frente em sua cadeira e encarando atentamente "é comprar um pedaço de terra e trazer todos os tipos de crianças de rua e crianças de lares adotivos ou crianças que tenham entrado e saído das instituições para doentes mentais, vivendo lá por causa de suas idéias estranhas. Haveria uma equipe de voluntários que gostasse de viver neste tipo de cenário rural. Eles cultivariam seu próprio alimento e as crianças teriam a responsabilidade de retirar as ervas daninhas e regar ou o que quer que fosse.

"Nós também teríamos muitos cães e carros e animais que estavam desabrigadas. As crianças poderiam ter um animal como seu e teriam esse ciclo de cuidar de algo. A fazenda teria painéis solares e seria autosuficiente. Não seria isolada, porque seria toda uma comunidade em si mesma. Haveria espaço para a expressão individual e a criatividade. Seria realmente maravilhoso."

Ele poderia ter um Porsche, mas River Phoenix não pensa dessa forma. Ele tem uma seriedade que muitas vezes se reflete em seus papéis nos filmes. O Peso de Um Passado é um caso em questão. É a história de Arthur e Annie Pope, radicais dos anos sessenta, cujo bombardeio num protesto anti-guerra atingiu uma fábrica de napalm e acidentalmente cegou um guarda de plantão. Eles estão fugindo desde então do FBI por 15 anos, vivendo uma vida subterrânea e criando os seus dois filhos para terem pés velozes, nunca olharem para trás, não confiar em ninguém. Isso funciona bem o bastante enquanto as crianças ainda são jovens, mas Danny Pope, interpretado por Phoenix, tem 17 anos e um é músico talentoso apenas terminando o colegial. Em uma família normal, ele teria automaticamente passado a estudar música, mas Danny não pode sequer pensar nisso: as formas e a história familiar exigidas exporia seus pais a uma captura e uma provável sentença de prisão. A história é contada através de Danny, que se apaixona pela filha do professor de música (interpretada por Martha Plimpton, a namorada de Phoenix na vida real), e pela primeira vez, ele se sente obrigado a dizer a verdade sobre si mesmo e sua família. O filme é um olhar doloroso em uma relação que requer desapego, e explora o efeito de paixões políticas em uma família.

"As pessoas pensam que os Popes são como a minha família, mas eles não são", diz Phoenix. "Meus pais nunca estiveram fugindo. Mudávamos porque não podíamos pagar o aluguel ou algo assim. Meus pais sentem simpatia pelos Popes, mas eles são pacifistas. Minha mãe nunca iria jogar uma bomba. Simplesmente não é da sua natureza. Além disso, na minha família somos brutalmente honestos um com o outro. Nós não escondemos os sentimentos da forma como os Popes fazem. E eu não acho que eu largaria ou jamais feriria a minha família. É o contrário, na verdade. Nunca tivemos esse tipo de vida familiar estável antes e eu estou gostando. Gosto de vir para casa e ter os membros de minha família em volta. E," acrescenta ele, com um brilho inesperado nos olhos, "a comida é muito boa."


Fonte: The Face Magazine, em julho de 1989

6 comentários:

  1. Maravilhoso este post!
    Valeu!!

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  2. Valeu, Marcela! Bom saber que você continua assídua...rs...

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  3. Eu não me canso de ler sobre a vida de River, ele dominaria o mundo se estivesse vivo ainda, rs.
    E ele tem uma família realmente incrível!

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  4. Uma história linda e emocionante de pessoas simples.
    Pais que souberam educar bem seus filhos, ensinando-os os verdadeiros valores da vida e como fazer a diferença.
    E concordo com a colega acima, River dominaria o mundo sim, uma pena que muitos heróis morrem cedo =(

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  5. Uma história linda e emocionante de pessoas simples.
    Pais que souberam educar bem seus filhos, ensinando-os os verdadeiros valores da vida e como fazer a diferença.
    E concordo com a colega acima, River dominaria o mundo sim, uma pena que muitos heróis morrem cedo =(

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  6. Sim, os heróis morrem cedo, Camila, mas antes eles escrevem parte da História. E River fez isso com todo o seu coração e sua alma. Ele nunca será esquecido, pois viveu em 23 anos mais do que muitos vivem em 100! :)

    Beijos.

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