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domingo, 4 de setembro de 2016

"Estrelas de 'Stand By Me' relembram River Phoenix após 30 anos": The Wrap/2016

"Fogos de artifício e brincadeiras: Estrelas de 'Stand By Me' relembram River Phoenix após 30 anos"


Corey Feldman, Wil Wheaton e Jerry O'Connell falam ao The Wrap sobre a diversão com o falecido ator




Por Meriah Doty,


River Phoenix tinha 15 anos na época. Ele morreria sete anos mais tarde, na idade de 23 anos, de uma overdose acidental de drogas.
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.The Wrap relembrou o filme e Phoenix em conversas com Feldman e outras estrelas do filme - Jerry O'Connell, que foi o protagonista mais jovem no filme aos 11 anos, e Wil Wheaton, que completou 13 anos durante as filmagens.
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 "Lembro-me que eu imediatamente gostei dele e eu queria que ele gostasse de mim", disse Wil Wheaton, agora um ator de 44 anos de idade e escritor. "River era fácil de se conviver. ... Nossos personagens eram melhores amigos, por isso, apenas fomos também. Foi completamente natural e sem complicações ".

Uma das memórias favoritas de Jerry O'Connell é soltando uma carrada de fogos de artifício com Phoenix e seus outros colegas de elenco. Como os fogos eram legais em Oregon, onde Stand By Me foi filmado, os jovens atores foram para a cidade.
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."Foi o momento mais feliz da minha adolescência", disse o ator, agora com 42 anos". "Nós enchemos um carro com eles e fomos à casa de River e os acendemos durante toda a noite".

O'Connell disse ao The Wrap como ele manteve viva a tradição de fogos de artifício ao longo dos anos com sua família.

"Nós sempre compramos um monte de fogos de artifício e os acendemos na praia por causa da minha lembrança mais feliz de Stand by Me", disse ele. "A luz no céu de verão em julho agora é exatamente a mesma que era quando estávamos filmando o filme. E não fica escuro até depois de dez horas lá."

Wheaton recordou o dia em que os jovens artistas colocaram todo o mobiliário da piscina de seu hotel embaixo da água. "Nós não simplesmente despejamos os móveis na piscina", explicou ele com uma risada. "Nós os dispomos como se isso fosse concebido para ser assim, como se por acaso fosse debaixo d'água."

Wheaton também se lembrou como Phoenix era dedicado, mesmo com a idade de 15 anos.
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"Lembro-me que Kiefer [Sutherland] agarra River e joga-o no chão, segurando um cigarro em frente ao seu rosto. Mas Kiefer não estava colocando o cigarro realmente perto do rosto de River, de modo que River disse: "Só ponha isto bem ali. Eu confio em você ... Eu quero usar o medo disso'" ,Wheaton lembrou. "Lembro-me de pensar que isso era uma coisa realmente madura e corajosa e arriscada como ator.

"Havia algo realmente de paz sobre ele", acrescentou do falecido ator. "Ele exalava esta sabedoria."O'Connell disse que seu orgulho sobre o legado do filme é misturado com uma profunda melancolia pela perda de Phoenix.

"Passou na televisão há alguns meses e eu estava com os meus filhos", disse ele. "Meus filhos têm sete agora e eu diria que, em cerca de 20 minutos, eles disseram: 'Isso é chato', e eles se afastaram. Eu fiquei e assisti tudo. Eu tenho que dizer que foi muito emocionante para mim. Quando River desaparece no final é realmente triste para mim. 

A experiência com drogas levou a lugares sombrios não apenas Phoenix, mas também Feldman, que teve uma longa batalha com o vício. Ele está focado em sua música agora, mas ele teve tempo para se lembrar de seu velho amigo.
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."Fiquei triste quando acabou e nós não permanecemos próximos", disse Feldman de Phoenix. "[Foi] provavelmente por causa de nossas mães e da natureza competitiva inerente que está encravada no relacionamento de crianças na indústria. 

O'Connell, nascido em Nova York, mudou-se para Los Angeles em algum momento da sua vida adulta. apenas há uma quadra de distância de onde ele morreu", disse ele de Phoenix, que morreu na boate Viper Room em West Hollywood. "Eu paro lá e faço uma pequena prece para ele."


Fonte: The Wrap, em 02 de agosto de 2016

  

sábado, 27 de agosto de 2016

Ethan Hawke fala como River Phoenix inspirou um capítulo no seu novo livro






Por Julide Tanriverdi,
 
Quem sabia que Ethan Hawke tinha aversão a regras? Falando à New York Magazine como participante do Vulture Festival, o ator aclamado confessou que que ele já foi "alérgico" a elas. E que é justamente por isso que ele acabou escrevendo o livro Rules for a Knight (Regras para Um Cavaleiro) para seus quatro filhos. Tudo começou quando Hawke teve problemas em introduzir algumas regras em casa.

"Eu estava sonhando com esse cavaleiro que diria a seus filhos como ser um cavaleiro e estes seriam os princípios. Costumava ficar irritado com minha esposa ... dormir é às 20h30, vamos fazer disso uma regra. Não! Vamos falar sobre a importância de ter um bom sono [em vez disso] ".

Durante a ampla conversa, Hawke falou sobre sua vida, seu ofício, e seus próximos projetos, como seu filme mais recente, Born to Be Blue, no qual ele interpreta a lenda do jazz Chet Baker. Ele também refletiu sobre alguns de seus ex-colegas estrelas, incluindo Robin Williams, Philip Seymour Hoffman, e River Phoenix.  

Como se constata, River Phoenix, a quem Hawke conheceu enquanto trabalhava em seu primeiro filme, Explorers, até inspirou um capítulo no livro.


"O narrador está contando a seus filhos sobre um cavaleiro com quem ele conviveu em sua formação", disse Hawke. "E esse cara era um melhor cavaleiro e um melhor espadachim, e as meninas que surgiam gostavam mais dele. E ele simplesmente começou a odiar esse outro cavaleiro. Durante sua primeira ação na batalha, seu amigo é morto. Só então ele percebe que ele fez dele um melhor espadachim. Eles não estavam competindo um com o outro, eles estavam em diálogo um com o outro. E isso para mim foi muitíssimo da minha experiência com River Phoenix ".

Hawke continuou: "Eu o amava e admirava. E estava extremamente enciumado. Atrevo-me a dizer que My Own Private Idaho foi o primeiro desempenho da minha geração no qual alguém da minha época fez algo, algo realmente original. O mundo mudou desde então maravilhosamente, mas ter 23 anos e interpretar um personagem abertamente gay em um filme convencional foi muito ousado, muito corajoso. E ele não pensou duas vezes sobre isso ... E eu estava tão tomado pela inveja. E, de repente, ele morreu e eu estava sentindo falta dele. Faltando o desafio dele. E quantas vezes nós nos vemos em competição com as pessoas ao nosso redor e não entendemos o que estamos fazendo?" 


Fonte: www.vulture.com, em 23 de março de 2016

  

terça-feira, 23 de agosto de 2016


Então, você veio ao mundo e nos deu tanto...


                                                                                                                        23/08/1970


                                        Obrigada, River, meu amor eterno!


"Então me siga, eu serei seu rio, rio, rio..." ('River' de Emeli Sandé)

sábado, 12 de dezembro de 2015

"Lendas das Telas: River Phoenix" (Cherwell/2015)


Patrick Oisin Mulholland lança uma reflexão sobre a tragicamente curta carreira do ícone adolescente




Por Patrick Oisin Mulholland,

O "James Dean vegan". É assim que a cultura popular prefere lembrar River Phoenix, se é que o faz. 

Em outros tempos galã teen, músico e indicado ao Oscar (Melhor Ator Coadjuvante em Running on Empty, 1988), hoje em dia sua memória é um adendo, embora interessante - uma nota de rodapé para a biografia de seu irmão mais novo, Joaquin. Mas River foi mais do que isso, muito mais.  

Em vinte e três curtos anos que ele viveu uma vida enchendo cada "implacável minuto com sessenta segundos do valor da distância percorrida." [N.T.: citação de um poema de Rudyard Kipling] Apenas mais uma estrela infantil destruída dos anos 1980?  

Dificilmente, e essa é a verdadeira tragédia: que alguém tão cheio de vida, tão sintonizado com o pulso e o ritmo do mundo em torno dele poderia ser reduzido a um par de linhas em um obituário e um "você se lembra quem" em recortes de artigos na parte de trás de revistas.

Nascido e criado em uma família de hippies, River teve uma infância incomum, para dizer o mínimo. Filmes como A Costa do Mosquito (1986) encontraram um paralelo improvável em sua própria educação ao lado do culto controverso "Os Meninos de Deus", e cantando nas ruas de Caracas, na Venezuela.  

No entanto, foi o clássico sobre amadurecimento Stand by Me (1986), e o desempenho desarmante de River como Chris Chambers, que marcou o início de sua ascensão à fama. A partir de então, o ativista da PETA mudou-se de vento em popa, não satisfeito em receber seus cheques de pagamento, mas em fazer filmes - filmes que significavam alguma coisa.

Falando para Charlie Rose, Ethan Hawke diz como "My Own Private Idaho (1992) estabeleceu o padrão para os jovens" que estavam construindo uma carreira para si próprios. Este filme independente e atrevido, a história de um garoto de programa, gay e narcoléptico se aventurando em busca de sua mãe perdida, foi uma escolha corajosa de River.  Isso cantou de promessa, apesar de promessa interrompida

É verdade, o brilhantismo de River nunca foi totalmente realizado - nem na música nem nas telas do cinema. No entanto, é a sugestão - aquela idéia do que poderia ter sido - aqueles brinquedos da nossa capacidade indispensável para admirar, que nos leva a formular a questão: "E se?" 


Fonte:  Cherwell, em novembro de 2015

sábado, 5 de dezembro de 2015

River Phoenix: A Última Entrevista (SET/1993) [Final]




Por Jean-Paul Chaillet,

PARTE FINAL

P:  Você citou a questão atômica e vários atores emprestam suas vozes para passar qualquer tipo de mensagem.  No seu caso, existe uma certa aura de anonimato à sua volta e, excetuando-se as capas de revistas adolescentes, a gente não  lê nem ouve muita coisa sobre você...

RP:  Eu sempre tive a impressão que poderia fazer alguma diferença, que eu poderia influenciar se usasse esse orifício que tenho na cabeça para me comunicar com as pessoas através da mídia. Eu via a mídia como arma, mas na verdade eu sou a arma. 

E acho que eu era ingênuo em pensar que o que você diz pode ser tomado de uma maneira didática.  Na verdade, por que eu estou apreendendo todo o tempo. Então eu tentava dar entrevistas, não é? Mas eu vejo as coisas de outra maneira.  Por que se existe alguém cujo trabalho eu respeito é Gary Oldman, e não foi por que li em alguma revista. O que me faz pensar que ele seja independente disso.  Harrison Ford também é independente de assuntos políticos e se mantém fora das publicações.  E, para falar a verdade, quem quer ouvir a opinião de artistas sobre assuntos que podem ser lidos nos jornais? 

Quando tenho que falar de um assunto muito importante, sinto que doutrinar o público, principalmente se esse é jovem e pouco informado, não é uma coisa errada.  No passado, falei muita besteira, muitas coisas que no dia seguinte mudei de ideia, muitas vezes eu era um personagem nas entrevistas. Falei muita coisa em tom sério que não passava de brincadeira.  Fazia isso como um laboratório, uma espécie de queda de braço com a imprensa. Mas agora não estou mais interessado nesse tipo de atitude. Gostaria de ser mais minimalista e dizer apenas o que tenho certeza. E além disso, sou uma pessoa muito simples. 


P:  Você não mora em Hollywood, e para uma pessoa que precisa trabalhar lá é necessário saber lidar com quem vive nela – os agentes, produtores, saber negociar. Existe algo que você precisa negociar?

RP:  Sim. Você tem que negociar o tempo inteiro. Existem pressões e uma série de expectativas sobre sua carreira. E as pessoas na indústria de cinema espalham boatos. Eu não pergunto a opinião das pessoas e realmente não me importo.  Não estou aqui para benefício da minha carreira ou da minha conta bancária. Eu só gostaria de ser inteligente e não gastar muito dinheiro. Mas não tenho nenhum plano de carreira, vou lendo os filmes e se alguma coisa me atrair, então ótimo. Por isso, a única estratégia por trás de The Thing Called Love é que a historia tinha que ser  um espécie de paradoxo depois de Garotos de Programa.  Eu quis que fosse assim porque seria bom ser ouvido no Meio Oeste e no Sul, onde meu personagem anterior não era bem visto.




P:  Em Garotos de Programa você faz um personagem que não era abertamente gay, mas... por outro  lado...

RP:  O problema não era tanto pelo que o sujeito era, pelo menos para o mercado negro. Não é ilegal ser gay; prostituto é. Esse é um campo onde uma série de pessoas tende a confundir o personagem com você. Sob o meu ponto de vista, tanto faz. Mesmo se eu fosse igual.  Mas existem certas distorções quando se representa um papel que pode limitar a existência de outros personagens que também têm que ser ouvidos. Sabe, eu não me preocupo com auto-imagem.
 
P:  Nas próximas semanas serão iniciadas as filmagens de Entrevista com o Vampiro. Temos aí o exemplo de um filme que nem começou e já tomou conta do noticiário, por causa da escolha do elenco. Isso o está perturbando?

RP:  Não, por que eu nem o vejo como um filme no qual eu vá tomar parte.  Eu não vou fazer um filme. Como você sabe, eu vou receber o meu diploma de jornalismo.  Vou acompanhar algumas entrevistas, vou ver esse burburinho todo, vou tentar chegar ao fundo disso tudo. É assim que eu estou tratando as coisas. Quando chegar no final é que eu vou saber. Não tem nada a ver com o planejamento de uma carreira. E eu tenho um grande respeito por qualquer um com quem eu venha a trabalhar. E desejo toda felicidade a eles.

P:  Você disse que não assiste a muitos filmes. Não é importante para você, como ator, tomar conhecimento do que é produzido a sua volta?

RP:  É bom saber o que tem sido feito, dos bons, pelo menos pela mídia. Não são todos, mas a maioria, os óbvios, não passam de poluição mental. E eu realmente não quero contaminar o meu trabalho, a minha maneira de pensar, com coisas que não irão acrescentar nada a minha interpretação. Nessa era da comunicação, você tem que ser seletivo.

P: Você está desenvolvendo algum projeto próprio?

RP:  Sim, está no papel. Algo que me é muito querido, mas que não comecei direito. Espero acabar de escrever e fazer esse filme nos próximos anos. Alem disso existem outros pequenos projetos.   

P:  Você perdeu a ingenuidade? Quando apareceu não passava de um garotinho.
 RP:  Não era ingenuidade. Era mais ignorância, não sabia das coisas. E falava o contrário do que estava pensando. Pensava que eu estava falando a verdade e... Mas eu vou apreendendo com o tempo. Tentativa e erro. Ultimamente tenho evitado falar a verdade quando pode sugerir algo negativo, manipulável. Estou tentando parecer otimista e educado.        


Fonte: Revista SET, em novembro de 1993
 

sábado, 28 de novembro de 2015

River Phoenix: A Última Entrevista (SET/1993) [Parte 2]




Por Jean-Paul Chaillet,

PARTE 2

P:  Mas você apreendeu alguma coisa com esse personagem (de Dark Blood), que nunca havia vivenciado antes?

RP:  Nunca fiz uma pesquisa tão profunda. De certa forma, fui educado dentro da era atômica e o que aconteceu nela sempre me interessou.  Sempre considerei  isso como “cuspir nos olhos do Senhor”... é uma maneira de falar. Como se o átomo fosse o derradeiro tabu. É como dizer dane-se – foda-se – para toda a criação, para tudo que permite que a vida exista. Romper um átomo é romper todas as regras, mas o tipo de pesquisa e a quantidade de informação que tive fizeram com que eu adquirisse um conhecimento mais profundo sobre esse tópico.

P:  Como um diretor reage quando você apresenta essa quantidade de pesquisa? Ou seja, existem os que ficam surpresos ou apavorados? Como Sam Shepard (com quem trabalhou em Silent Tongue) ou Gus Van Sant reagem? Quero saber se ficam surpresos, se te encorajam a fazer isso.

RP:  Bem, não é sempre que eu conto para eles. Acaba funcionando como uma espécie de subsidio.

P:  Porque... eu não sei se você assistiu a Kalifornia (com Brad Pitt e Juliete Lewis)...

RP: Não. Eu não assisto a filmes.

P:  Quero dizer, você começa a ver o desvio psicológico de certas pessoas e o que a sociedade pode fazer com elas, como os afeta. Mas até que ponto seu personagem é violento, como mergulha nesse lado.  Até onde vai?

RP:  Ele não é violento, apenas um absolutista e quando vê algo, caminha até o lugar e tudo que estiver no caminho tem que sair da frente. Ele vai pedir para que saia e, se isso não acontecer, cuidará de remover ele mesmo, para chegar onde precisa chegar porque, se não fizer isso, estará abandonando as suas convicções e a sua razão de viver.

P:  Como ele sobrevive no dia-a-dia?

RP:  Ratos, serpentes, água da chuva, qualquer coisinha que passe por ali, e ele beberá o seu sangue, ou aprenderá seu jogo ou...

P:  Você tem alguma aversão por essas coisas? Há uma cena em que você traz amarrados vários ratos e cobras e você está pisando em...

RP:  Se eu tenho aversão ou se o personagem tem aversão? Se eu tenho  aversão a alguma coisa? Bem, como eu não vivo da terra, com eu não estou na cadeia natural de alimentação, eu não me sinto no direito de tirar a alma de qualquer coisa viva. Acho presunção pensarmos que temos esse direito; que eu tenha, pelo menos.



P: Você é vegetariano?

RP:  O que isso significa exatamente?

P: Você não come carne vermelha ou frango?

RP:  Eu não como nenhum animal. É duro para mim ir a um supermercado e comprar alguma coisa que eu não tenha matado. Se eu vivesse no Alasca, estaria comendo peixe; mas eu não vivo lá.

P:  Você está satisfeito por ser ator? Trata-se de algo em que você pensa? O que vem primeiro é o prazer, a pesquisa, o processo intelectual?

RP:  Bem, quando você olha a galeria de personagens, de filmes, ou de qualquer outro meio de expressão, nota que existem buracos e elos perdidos e aquilo que eu mais gostaria de fazer e aquilo que eu não sou capaz de fazer é a combinação ideal.  Embora seja difícil fazer qualquer coisa que seja efetiva nesse sentido, meu objetivo é falar por esses personagens que ainda não foram interpretados.  Existem bolsões no tempo que ainda não foram identificados.  Existe a gravidade que ainda não entendemos completamente e cada pequeno avanço que fazemos, seja na ciência, na matemática ou psicologia humana, nos aproximamos de um quadro cada vez maior.  Acredito que exista uma quantidade enorme de ideias e de personagens que ainda não tiveram voz.  Se eu puder ser essa voz, ficarei feliz. Essa é  concepção que eu possuo do prazer, a oportunidade de chegar a algo que nunca foi alcançado anteriormente, conseguir isso, não para ser original ou para ser o primeiro. Mas por que é preciso ir cada vez mais longe,cobrir um terreno sempre maior.

P:  E está cada vez mais difícil encontrar esse tipo de proposta a que você se refere, não?

RP:  Bem, eu posso repetir o mesmo papel várias vezes e fazê-lo de milhões de maneiras diferentes.  É infinito. Assim como existem incontáveis átomos no meu corpo, tantos são os personagens a serem interpretados.

P: Você se sente satisfeito com o trabalho de ator que vem realizando? Você o considera representativo?

RP:  Honestamente, eu não raciocino sob o ponto de vista de carreira e quanto mais eu vou seguindo, mais me sinto perguntando “o que está havendo?” Sinto muito. Eu realmente não alimento ideias retrospectivas sobre minha carreira e evito  pensar em mim mesmo como um ator.  Eu sinto como se cada experiência, cada projeto em si fosse  uma vida diferente, como uma reencarnação. Por isso quando eu olho para um de meus filmes, eu não sinto que devo merecer crédito por ele, não consigo nem ser muito critico nem benevolente, por que trata-se de uma coisa inocente.  É passado e eu não tenho nenhuma relação. Não posso ter crédito por que não era eu; eu me dei para uma outra vida e aquele personagem fez o resto. É ele quem está falando através de mim e não eu por ele.

P:  Eu queria saber se você é capaz ou teve sucesso em manter-se dividido.  Se em algum momento as duas partes (personagem e astro) emergiram juntas.

RP:  Absolutamente, absolutamente. Quer dizer, eu entendo que é inerente a esse tipo de trabalho o status de celebridade, o status de estrela, seja lá o que for isso.  Eu não sou um “performer”, não sou nem mesmo um ator. Eu me sinto mais como uma energia capaz de transformar qualquer coisa.
 
Continua...


Fonte: Revista SET, em novembro de 1993

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

River Phoenix: A Última Entrevista (SET/1993) [Parte 1]


Esta entrevista foi feita no set de filmagem de "Dark Blood", de George Sluizer, em 19 de outubro de 1993, em Utah.  Quando River Phoenix faleceu, pouco menos de duas semanas depois, o filme estava incompleto e, com a sua morte, foi cancelado. Nesta conversa com o correspondente da revista francesa Première em Los Angeles, o ator inicia com a seguinte frase: “Na verdade, eu não gosto de dar entrevistas, a não ser a trabalho”. Apesar disso, falou compulsivamente, e, tropeçando nas ideias, revelou seu lado místico, suas impressões sobre o mundo e seus sentimentos em relação à carreira de ator. Premonitoriamente, ao falar do seu trabalho seguinte, "Entrevista com o Vampiro", Phoenix disse que não o sentia como um filme no qual iria participar.  A seguir, a ultima entrevista do ator, publicada com exclusividade por SET.

* Agradecimento especial a Whether Phoenix, que me enviou a entrevista (que só tenho no meu exemplar da revista) neste formato! Valeu!
 


Por Jean-Paul Chaillet,

PARTE 1

P: O que mais o atraiu em Dark Blood?
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RP: Acho que o que mais me envolveu nesse script  foi a história do homem branco trazendo a sua assim chamada, civilização, para uma terra virgem, o processo de adulteração.  O que é o progresso e o que é a quebra de átomos, essa encruzilhada... Foi muito simbólico para a América, sabe, ser a primeira a... você sabe, a explosão nuclear.

P:  Onde foi?

RP:  Em Los Alamos, Novo México, e é uma das coisas mais interessantes... Eu li "American Ground Zero", o livro que justifica isso. Tudo bem. Eles iam esperar que o vento soprasse em direção de Utah, onde estamos agora, iniciando testes nucleares à noite.  É impressionante quando você vai pesquisar isso tudo. George (Sluizer, o diretor) encontrou um monte de questões interessantes. Mas a principal razão que me levou a trabalhar nesse filme foi por que eu senti que era um aspecto importante do debate.

P:  Você ainda é relativamente muito novo, 23 anos... Mas seus filmes A costa do Mosquito, Quebra de Sigilo, O Peso de Um Passado lidam com temas sociais ou políticos e procuram passar uma mensagem. Você se vê como um ator que tem interesses mais profundos?

RP:  Eu não acredito que exista alguma regra a priori. Eu chego aos assuntos através do que vou lendo, e quando sinto que podem dar um bom script, isso me inspira. Escolho pelo que leio. É uma seleção individual.

P:  Alguns atores da sua geração (detesto dizer isso) fizeram filmes apenas de apelo comercial, que renderam boa bilheteria.  Suas escolhas parecem estar bem longe disso.

RP:  Eu acredito que muitos dos filmes poderiam ter sido um grande sucesso... se eu não estivesse neles. E eu arruinei aqueles que poderiam ter feito uma boa carreira.



 
P:  Eu quero dizer que eles fizeram filmes de apelo adolescente ou algo nessa linha.

RP:  Bem, eu fiz um filme chamado A Thing Galled Love (“Um Sonho, Dois Amores”, dirigido por Peter Bogdanovich). O filme era para ser um grande estouro, aquela visão caipira orgulhosa, aquele country genuinamente norte-americano; mas por causa da minha influência, do meu trabalho, da reestruturação dos diálogos, das pessoas que eu trouxe para o filme... – a música, o produtor, assim como outros aspectos... Você sabe, Dermot Mulroney e Antony Clark (que interpretam os personagens Kyle Davidson e Billy, respectivamente) mudaram o filme drasticamente. A Paramount não está muito feliz comigo por que a coisa toda seria um sucesso ao invés de um drama intimista. Não é o melhor script de todos, mas eu tinha visto alguma coisa nele e portanto dei duro, procurei torná-lo uma historia com personagens e não algo vago.
 
P:  Sua personagem no filme atual (Dark Blood) é um tipo solitário. Como você o descreveria?

RP:  Como uma pessoa que é minimalista e busca refugio em espaços abertos. Ele tem uma visão limitada do mundo.

P:  Ele é místico? Tem uma visão mística?

RP:  Bem, ele foi apanhado pela cultura nativa norte-americana, pela população indígena, é conseguiu passar por provas, tornando-se um irmão de sangue, em essência, adotando suas crenças, apreendendo o segredo sagrado da fabricação de bonecas, o que é especial, pois não se permite que homens brancos façam Kachinas. É um segredo tribal muito bem guardado, mas que lhe foi revelado por que ele havia passado pelas provas e seus únicos amigos eram os índios ali da terra e –  eu acho  que ele sentia a injustiça na pele, aquilo tudo que as populações nativas haviam passado, toda a exploração e agora esses testes nucleares contra uma população que não tem a menor ideia do que era energia nuclear e muito menos suas consequências. Isso o fez rebelar-se contra  o governo, toda essa injustiça.

P:  Mas tudo isso estava no script ou foi você quem sugeriu e discutiu e...

RP:  Bem, quero dizer, todo esse background que eu te mostrei eu havia escrito e – bem, é algo que você não vê no filme, mas foi de onde parti para melhor descrever. Eu faço a biografia de cada personagem porque acho que é a única maneira para você se ater às referências dos personagens.

P:  Mas você costuma fazer isso com os papeis menores, como em Quebra de Sigilo?

RP:  Claro. Sempre.

P:  Você escreve tudo aquilo que vem com o personagem?

RP: Bem, eu escrevo um monte de coisas. Não esqueço o que penso. Tenho uma memória muito boa. Portanto, em alguns casos basta ficar lembrando e repetindo aquilo na cabeça como se estivesse lembrando-se da infância. Se você escreve muito sobre certos personagens, acaba ficando muito tediosos e impróprio. Em Garotos de Programa eu escrevi muito.

Continua...


Fonte: Revista SET, em novembro de 1993